Dengue: o que é, como se transmite e como se protege

Dr. Miguel Leonardo Costa dos Santos (O.M. 71763)

A dengue é uma das doenças transmitidas por mosquitos com maior impacto global, sendo considerada pela WHO , CDC e ECDC como a doença arboviral mais comum e prevalente no mundo.
A sua incidência tem aumentado de forma significativa, não apenas em regiões tropicais, mas também em áreas onde antes não existia transmissão autóctone.
Para profissionais de saúde que trabalham em Medicina do Viajante, Urgência/Emergência e Doente Crítico, a dengue representa um desafio clínico relevante: evolução imprevisível, risco de complicações graves e necessidade de vigilância rigorosa.
Este artigo apresenta uma visão clara, atualizada e prática sobre a dengue — o que é, como se transmite, quais os sinais de alerta e como se proteger.

O que é a dengue?

A dengue é uma infeção viral causada pelo vírus da dengue (DENV), pertencente à família Flaviviridae. Existem quatro serotipos (DENV‑1, DENV‑2, DENV‑3 e DENV‑4).
A infeção pode variar desde um quadro ligeiro até formas graves, como a dengue hemorrágica ou o choque por dengue, que exigem cuidados médicos imediatos.
Segundo a World Health Organization, estima‑se que ocorram 390 milhões de infeções por dengue por ano, com tendência crescente devido a alterações climáticas, mobilidade global e expansão do mosquito vetor.

Como se transmite a dengue?

A transmissão ocorre através da picada de mosquitos do género Aedes  principalmente:
● Aedes aegypti
● Aedes albopictus
Estes mosquitos são diurnos, com maior atividade ao início da manhã e final da tarde.

Não há transmissão direta entre pessoas

A dengue não se transmite por contacto, gotículas, alimentos ou água.
A transmissão exige sempre a picada de um mosquito infetado.

Mobilidade global aumenta o risco

Viajar para zonas endémicas aumenta a probabilidade de exposição.
É por isso que a dengue é uma preocupação crescente em Medicina do Viajante.

Quais são os sintomas da dengue?

Os sintomas surgem geralmente entre 4 a 10 dias após a picada.

Sintomas mais comuns

● febre alta súbita
● dor de cabeça intensa
● dor retro‑orbital
● dores musculares e articulares
● náuseas e vómitos
● cansaço extremo
● erupção cutânea

Sinais de alarme (exigem avaliação médica
urgente)

● dor abdominal intensa
● vómitos persistentes
● sangramentos (gengivas, nariz, urina, fezes)
● tonturas ou sensação de desmaio
● dificuldade respiratória
● irritabilidade ou sonolência excessiva
Estes sinais podem indicar progressão para formas graves da doença.

Quem está mais vulnerável?

● viajantes para zonas endémicas
● crianças
● idosos
● pessoas com doenças crónicas
● profissionais que trabalham em ambientes tropicais

● indivíduos com infeções prévias por dengue (maior risco de formas graves)

Como se proteger da dengue?

A prevenção é a medida mais eficaz.
Como médico com prática em Medicina do Viajante, estas são as recomendações
essenciais.

Proteção contra picadas de mosquito

● usar repelentes com DEET, icaridina ou IR3535
● aplicar repelente após o protetor solar
● usar roupa clara e de manga comprida
● evitar zonas com água parada
● dormir com redes mosquiteiras
● utilizar ar condicionado ou ventoinhas (reduzem atividade do mosquito)

Medidas ambientais

● eliminar recipientes com água parada
● limpar calhas, vasos e tampas
● manter piscinas tratadas
● fechar depósitos de água
● usar inseticidas aprovados em zonas de risco

Vacinação

A vacina contra a dengue existe, mas não é universal.
A sua indicação depende:
● da idade
● do histórico de infeção prévia
● da epidemiologia local
A avaliação deve ser feita por um profissional de Medicina do Viajante.

O que fazer se suspeitar de dengue?

● procurar avaliação médica
● evitar anti‑inflamatórios (AINEs)
● manter hidratação rigorosa
● monitorizar sinais de alarme
● evitar novas picadas (para não perpetuar o ciclo de transmissão)
Em contexto de Urgência/Emergência, a prioridade é avaliar estabilidade hemodinâmica,
hidratação, hemograma e sinais de evolução para formas graves.

Dengue e o Dia Mundial do Mosquito: porque importa falar sobre isto?

O Dia Mundial do Mosquito assinala a descoberta de que os mosquitos transmitem
doenças.
Hoje, mais do que nunca, é essencial reforçar a literacia em saúde sobre:
● prevenção
● diagnóstico precoce
● proteção individual
● impacto da mobilidade global
● importância da vigilância epidemiológica

A dengue é uma doença evitável, mas exige conhecimento, responsabilidade e ação.
Se vai viajar para um país de risco, não facilite!

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FAQS:
– A dengue pode afetar viajantes que regressam a Portugal?
Sim. Portugal não é um país endémico, mas todos os anos surgem casos importados
em viajantes que regressam de zonas tropicais. Estes casos exigem vigilância clínica
porque podem evoluir para formas graves mesmo após o regresso. Além disso, a presença
crescente de Aedes albopictus no sul da Europa aumenta a preocupação com transmissão
autóctone futura.
– Porque é que algumas pessoas têm dengue grave e outras não?
A evolução depende de vários fatores: serotipo do vírus, estado imunológico, infeções
prévias por dengue (que aumentam risco de formas graves), idade, comorbilidades eresposta inflamatória individual. Não é possível prever com exatidão quem irá evoluir para dengue grave, daí a importância da vigilância clínica.
– A dengue pode ser confundida com outras doenças?
Sim. Em Urgência, dengue pode ser confundida com gripe, COVID‑19, febre tifoide,
leptospirose, chikungunya ou malária. A diferenciação exige avaliação clínica, contexto
epidemiológico e exames laboratoriais. É por isso que o histórico de viagem é essencial.
– O mosquito Aedes está a expandir-se na Europa?
Sim. Aedes albopictus já está estabelecido em vários países europeus, incluindo Portugal
continental. O aumento da temperatura média e alterações climáticas favorecem a sua
expansão. Isto não significa transmissão ativa de dengue, mas aumenta o potencial de
surtos futuros.
– Posso apanhar dengue mais do que uma vez?
Sim. Existem quatro serotipos distintos. Uma pessoa que já teve dengue fica protegida
apenas contra o serotipo que a infetou. Infeções subsequentes por serotipos diferentes
aumentam o risco de dengue grave devido a mecanismos imunológicos de resposta
exacerbada.
– A dengue tem impacto no sistema cardiovascular?
Sim. A dengue pode causar alterações hemodinâmicas, aumento da permeabilidade
vascular, hipotensão e, em casos graves, choque. Em doentes com patologia cardíaca
prévia, o risco de descompensação é maior.
– Existe risco de transmissão em unidades de saúde?
Não. A dengue não se transmite por contacto, gotículas ou superfícies. O único risco é a
presença de mosquitos vetores no ambiente. Em Portugal, este risco é mínimo em contexto
hospitalar.
– Qual é o papel da hidratação na recuperação da dengue?
A hidratação é um dos pilares fundamentais do tratamento. A dengue provoca perda de
líquidos para o espaço extravascular, aumentando risco de choque. Uma hidratação
adequada reduz complicações e melhora o prognóstico.
– A dengue pode afetar grávidas?
Sim. A infeção durante a gravidez pode aumentar risco de parto prematuro, baixo peso e
transmissão vertical (rara, mas possível). Grávidas que viajam para zonas endémicas
devem ter vigilância reforçada.
– O mosquito que transmite dengue também transmite outras doenças?

Sim. Aedes aegypti e Aedes albopictus podem transmitir chikungunya , Zika e febre amarela.

Por isso, a prevenção da picada é uma medida que protege contra várias doenças, não apenas dengue.

Laringoscopia

Endoscopia dos Seios Perinasais

Otoemissões Acústicas (OEA)

Impedanciometria

Pesquisa dos Reflexos Estapédicos

Timpanograma

Audiograma Vocal

Medicação, Memória e Solidão: Quando tomar os Comprimidos se torna um Risco Invisível

Tomar corretamente a medicação prescrita pelo médico parece um gesto simples, mas implica recordar a hora, distinguir embalagens, compreender mudanças de dose, renovar receitas e reconhecer efeitos adversos. Quando existe declínio cognitivo e a pessoa vive sozinha, esta rotina pode transformar-se numa fonte de confusão e de risco. Um estudo qualitativo publicado em 2026 no JAMA Internal Medicine ouviu 116 adultos com 55 ou mais anos com défice cognitivo e vida solitária, bem como 54 familiares, amigos ou outras pessoas próximas. O objetivo foi perceber o que facilita ou dificulta a gestão diária da medicação.

Os problemas começaram pelo mais básico: não haver ninguém que recorde a toma. Alguns doentes criavam rotinas, associando os medicamentos ao café da manhã ou a outros hábitos; outros usavam caixas semanais, alarmes ou telefonemas de familiares. Estas soluções ajudavam, mas não eliminavam a incerteza. Uma caixa de comprimidos só é útil se estiver corretamente preparada e se a pessoa compreender o que deve tomar. Outro receio frequente era sofrer tonturas, sonolência, confusão ou queda sem ter quem ajude. Perante essa possibilidade, alguns doentes reduziam ou suspendiam medicamentos por iniciativa própria. Outros ocultavam esquecimentos ou dificuldades aos profissionais de saúde, com medo de perder autonomia ou de serem considerados incapazes de continuar em casa. Aqui reside uma outra mensagem: a confiança não é um detalhe da relação clínica; é uma condição de segurança. A complexidade terapêutica agravava tudo. Várias receitas, embalagens semelhantes, alterações sucessivas e instruções pouco claras aumentavam a probabilidade de duplicações, omissões e acumulação de medicamentos já desnecessários. Familiares e amigos prestavam apoio essencial, mas geralmente intermitente. Não conseguiam confirmar todas as tomas nem detetar rapidamente um erro ou uma reação adversa. Também o sistema de saúde criava obstáculos: linhas telefónicas difíceis, cartas incompreensíveis, problemas comparticipações, renovação de receitas e deslocação à farmácia.

O estudo deixa orientações práticas: sempre que um idoso vive sozinho, sobretudo se toma muitos medicamentos ou fármacos de maior risco, deve avaliar-se não apenas a memória, mas a capacidade real de gerir a terapêutica. Convém perguntar, sem julgamento: “Tem-se esquecido de alguma toma?”, “Algum medicamento causa medo ou mal-estar?”, “Há caixas antigas ou comprimidos por usar em casa?”. Uma resposta honesta é mais provável quando o doente percebe que o objetivo é preservar e não retirar a sua autonomia. É igualmente necessário simplificar: reduzir tomas diárias, eliminar medicamentos sem beneficio atual, harmonizar horários, usar embalagens organizadas e manter uma lista única e atualizada. Farmacêuticos, cuidadores formais, familiares, amigos ou vizinhos de confiança podem ser envolvidos com o consentimento do doente. Visitas domiciliárias e revisão direta das embalagens revelam os problemas que raramente foram evidentes numa consulta convencional.

A tecnologia pode ajudar através de alarmes, dispensadores inteligentes, videochamadas ou alertas remotos. Porém, não substitui o acompanhamento humano e pode até confundir quem tem dificuldades cognitivas. Entregar medicamentos ao domicílio também não garante que sejam tomados; por vezes apenas facilita a sua acumulação.

A conclusão é simples: viver sozinho é um determinante de saúde que deve entrar na prescrição. O melhor esquema terapêutico não é apenas 0 cientificamente correto. É aquele que a pessoa consegue compreender, executar e tolerar com segurança no contexto real da sua vida. Preservar a independência exige apoio proporcionado, comunicação clara e vigilância discreta antes que um esquecimento se transforme numa queda, numa hospitalização ou numa perda evitável de autonomia.

 

 

 

Fonte Principal: Growdon ME et al. JAMA Internal Medicine. 2026;186(7):838-849.

Artigo por: Prof. Dr. Ovídio António Ferreira Costa (Cédula Profissional nº13419)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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