Mexa o Corpo e Cuide do Cérebro – Saia da Inatividade
Manter o corpo em movimento pode ajudar a preservar não só a força e a mobilidade, mas também as capacidades mentais à medida que envelhecemos. Quando a fragilidade física se associa a alterações cognitivas, sem demência estabelecida, falamos de fragilidade cognitiva. Esta condição pode comprometer a autonomia, mas não é necessariamente irreversível: o exercício físico pode ajudar a contrariar parte dos seus efeitos.
O que Revelam os Novos Estudos?
Uma revisão sistemática publicada na BMC Geriatrics reuniu 17 ensaios com 1691 participantes de 60 ou mais anos. Os investigadores compararam várias abordagens: exercício aeróbio, treino de força, programas que combinam diferentes tipos de exercício, Tai Chi, Baduanjin e exercício associado a tarefas cognitivas. A combinação de Baduanjin com treino cognitivo apresentou o resultado mais consistente na avaliação das capacidades cognitivas. Já o Programa de Exercícios Otago destacou-se na mobilidade. Outras modalidades também mostraram resultados muito promissores. Para conhecer o programa Otago, pode consultar este vídeo.
Como pode o Movimento Beneficiar o Cérebro?
Ao exercitarmos o corpo, podemos favorecer a circulação cerebral e a comunicação entre os neurónios cerebrais. O movimento pode também estimular a neuroplasticidade – a capacidade do cérebro para adaptar as suas ligações -, reduzir a inflamação e promover proteínas como o BDNF, importantes para o funcionamento neuronal. São mecanismos promissores, mas não provam que o exercício previna a doença de Alzheimer. A revisão avaliou sobretudo capacidades cognitivas e físicas, e não a prevenção da demência a longo prazo.
Dar Movimento ao Corpo e Desafios à Mente
Aprender uma sequência de movimentos, recordar os passos de um exercício ou coordenar gestos que exigem atenção são formas de pôr o corpo e a mente a trabalhar em conjunto. O Tai Chi e o Baduanjin são exemplos desta abordagem. A ideia é promissora, mas convém manter expectativas realistas: combinar exercício e treino cognitivo ainda não demonstrou ser sempre melhor do que praticar exercício isoladamente.
O Melhor Ponto de Partida é Sair da Inatividade
Não é preciso procurar um exercício milagroso. O essencial é combinar caminhada, fortalecimento muscular e treino do equilíbrio, respeitando as capacidades e preferências de cada pessoa. Vários programas estudados duraram 12 a 16 semanas, com três sessões por semana; estes dados, porém, não definem uma dose ideal. O que importa é criar uma rotina, progredir de forma gradual e praticar com segurança. Para quem tem fragilidade acentuada, doença cardiovascular ou antecedentes de quedas, a avaliação clínica e a orientação profissional são especialmente importantes.
Mais Autonomia para Viver o Dia a Dia
Preservar a memória e a mobilidade é, acima de tudo, preservar a liberdade de fazer as pequenas coisas que dão sentido ao quotidiano: levantar-se, preparar uma refeição, sair de casa e conviver. Apesar das limitações da investigação, o exercício é sem dúvida uma intervenção potencialmente útil para envelhecer com mais saúde e autonomia. Não garante proteção contra a demência nem substitui o diagnóstico e o tratamento, mas deixa uma mensagem encorajadora: cuidar dos músculos também pode ser uma boa forma de cuidar do seu cérebro.

Referência: Su L, Abudoureheman W et al. Exercise-based interventions for cognitive frailty in older adults: a systematic review and network meta-analysis. BMC Geriatrics. 2026.
Vídeo sobre programa Otago: https://www.youtube.com/watch?v=s-3198ceK8M
Artigo por: Prof. Dr. Ovídio António Ferreira Costa (Cédula Profissional nº13419)



