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Cessação Tabágica em Portugal: Consultas no SNS, Cigarros Eletrónicos e Fatores de Sucesso

O número de ex-fumadores tem aumentado em Portugal nos últimos anos? Quais são os dados mais relevantes que demonstram esta evolução?

Portugal tem vindo a registar uma tendência positiva na luta contra o tabagismo. Os dados mais recentes mostram que o número de ex-fumadores está a aumentar.

De acordo com o Inquérito Nacional de Saúde de 2019 (disponível no Portal do INE), 21,4% da população portuguesa com 15 ou mais anos identificava-se como ex-fumadora – um crescimento face aos anos anteriores, que reflete não só a crescente consciência dos malefícios do tabaco, mas também o impacto das políticas de saúde pública implementadas nas últimas décadas.

Paralelamente, a percentagem de fumadores ativos diminuiu de cerca de 20% em 2014 para 17% em 2019. No entanto o consumo crescente de novas formas de tabaco pelos mais jovens mostra-nos que ainda temos um longo caminho a percorrer e que devemos continuar a promover políticas de saúde pública que incentivem a cessação do tabagismo e a prevenção do seu início.

Qual é o papel das consultas de cessação tabágica no Serviço Nacional de Saúde, e considera que a atual resposta é suficiente para a procura existente?

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem desempenhado um papel fundamental no combate ao tabagismo através das consultas de cessação tabágica nos centros de saúde e hospitais. Estas consultas são uma ferramenta essencial para:

  • Apoiar quem decide abandonar o vício do tabaco;
  • Oferecer acompanhamento médico, psicológico e farmacológico.

No entanto, a resposta ainda está longe de ser suficiente para a procura existente. Continuam a existir listas de espera, falta de profissionais de saúde e escassez de recursos, o que limita o acesso a programas eficazes. Nesse sentido é essencial reforçar a formação de profissionais nesta área e garantir que todas as pessoas que procuram ajuda possam obtê-la atempadamente.

Para além da dependência física, sabemos que existe uma forte componente comportamental no tabagismo. Como é que os profissionais de saúde abordam estes dois aspetos durante o processo de cessação?

A cessação tabágica não é apenas uma batalha contra a nicotina. A dependência física é importante, mas o comportamento associado ao ato de fumar (os rituais, as rotinas) é igualmente difícil de controlar.

O fumador que deixa de fumar não perde apenas a substância, mas também um “companheiro” em momentos de stress, lazer ou socialização. É por isso que os profissionais de saúde devem adotar uma abordagem integrada, que combine terapêutica farmacológica com intervenções comportamentais e motivacionais. A escuta ativa, a identificação de estímulos emocionais e a construção de estratégias personalizadas são fundamentais para gerir os momentos de fragilidade que inevitavelmente acabam por surgir.

Temos assistido ao surgimento de alternativas ao cigarro tradicional, como os cigarros eletrónicos e produtos de tabaco aquecido. Qual é o impacto destas alternativas no processo de cessação tabágica?

Nos últimos anos, surgiram alternativas ao cigarro tradicional –  os cigarros eletrónicos, o tabaco aquecido, entre outros dispositivos.

Muitos destes produtos são promovidos como “menos nocivos” e até como auxiliares no processo de cessação. No entanto, a evidência científica disponível mostra-nos que estes produtos continuam a expor o organismo a substâncias nocivas.

Além disso, para muitos jovens, estes dispositivos são a porta de entrada para a dependência da nicotina. Ou seja, em vez de funcionarem como transição para o abandono do consumo, podem perpetuar o ciclo de dependência.

Nesse sentido, não são uma solução para deixar de fumar, mas antes um risco de manter a dependência.

Na sua experiência clínica, quais são os principais fatores que levam ao sucesso a longo prazo na cessação tabágica, e que mensagem deixaria a quem está a considerar deixar de fumar?

Os fatores que mais contribuem para o sucesso na cessação tabágica são:

  • Uma motivação forte e bem definida – como por exemplo a saúde, a família ou os filhos;
  • O apoio profissional adequado;
  • O envolvimento de familiares e amigos;
  • A capacidade de aprender com os erros e recaídas, encarando-os como parte do processo, e não como falhas.

Cada pessoa tem o seu tempo e o seu percurso, e a empatia é essencial para construir uma relação terapêutica de confiança.

Para refletir…

A quem está a considerar deixar de fumar, deixo uma mensagem clara: é possível!

Não importa quantas vezes tentou no passado. Cada tentativa é um passo mais próximo do sucesso. Procure ajuda, informe-se, envolva-se. Não se trata apenas de evitar doenças, mas de recuperar autonomia, qualidade de vida e liberdade.

O primeiro cigarro foi uma escolha. O último também pode ser.

 

Perguntas Frequentes

A vontade intensa (craving) tende a diminuir significativamente nas primeiras 2 a 4 semanas, mas pode surgir ocasionalmente durante meses. O importante é reconhecer que estes impulsos são temporários e que existem estratégias eficazes para os ultrapassar.

Sim, é relativamente comum ganhar algum peso, sobretudo nos primeiros meses. Isto acontece porque o metabolismo desacelera ligeiramente e muitas pessoas substituem o cigarro por alimentos. No entanto, com acompanhamento nutricional e atividade física regular, este aumento pode ser mínimo e temporário.

Ambas as estratégias podem resultar, dependendo da pessoa. Algumas conseguem parar de um dia para o outro, enquanto outras beneficiam de uma redução gradual. O mais importante é ter um plano estruturado e apoio profissional.

Os tratamentos aprovados – como terapêutica de substituição de nicotina ou medicamentos prescritos – são considerados seguros quando usados sob orientação médica. Os riscos são muito inferiores aos do consumo continuado de tabaco.

Sim. Mesmo consumos ocasionais aumentam o risco de doenças cardiovasculares e podem facilmente evoluir para um padrão diário. Não existe um nível “seguro” de exposição ao tabaco.

Oferecer apoio emocional, evitar julgamentos, ajudar a identificar gatilhos e celebrar pequenas conquistas faz uma grande diferença. A presença de uma rede de suporte é um dos fatores mais fortes de sucesso.

Alguns benefícios são quase imediatos: em 20 minutos a tensão arterial melhora; em 48 horas o olfato e o paladar começam a recuperar; ao fim de algumas semanas a respiração torna-se mais fácil. A longo prazo, o risco de doenças cardiovasculares e cancro diminui de forma significativa.

 

 

 

 

Artigo por: Dr. José Coutinho Costa (Cédula Profissional nº56304)